Política de desenvolvimento rural e de educação do campo como mecanismos de combate à pobreza no Brasil

  • Marcos Antônio de Oliveira Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo

Este artigo faz uma constatação: há uma relação entre as políticas de desenvolvimento rural e de educação do campo no Brasil como mecanismo de combate à pobreza. A primeira, implementada a partir de meados dos anos 1990 com a criação do Pronaf-Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e do MDA-Ministério do Desenvolvimento Agrário para geri-lo, consubstancia-se na progressiva dominância do enfoque distintivo entre a grande produção, ou agronegócio, que recebe recursos do Estado para o abastecimento alimentar e as exportações, e outro tipo de agricultura, de base familiar, atrelada a processos de produção de menor escala, mais adequada à preservação ambiental e palco das ações de outro agricultor, um agricultor familiar. Para a articulação destes enfoques, esta política transmuta-se dos anos 1990 em diante para uma política de “desenvolvimento territorial”, que necessita tanto da atuação do Estado quanto da sociedade civil, de seus sujeitos e atores. Constatando a continuidade no campo brasileiro da concentração fundiária e da pobreza extrema e a crescente presença nas políticas públicas do ideário do desenvolvimento, o artigo relata o avanço da política de educação do campo na legislação e gestão (Programas e ações do Estado), diagnosticando a lógica de sua concretização na necessidade que a educação toma nesta estratégia e, em particular, a educação do campo na promoção do combate à pobreza e do desenvolvimento rural via aumento das capacidades técnicas requeridas para a inserção produtiva bem como a criação de um “capital social” para a integração cidadã dos sujeitos do campo na dinâmica social.

Biografia do Autor

Marcos Antônio de Oliveira, Universidade Federal de Santa Catarina
Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Paraná (1993), graduação pelo Programa Especial em Formação Pedagógica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (2003), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (2004) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (2008). Tem experiência na área de i) Agronomia, com ênfase em Economia Rural, atuando principalmente nos temas: fundamentos econômicos, mundo do trabalho, mercados agrícolas e cadeias agroindustriais, e ii) Educação, atuando principalmente nos temas: trabalho e educação, epistemologia e movimentos sociais. Atualmente é professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vinculado ao Departamento de Estudos Especializados em Educação (EED), atuando como pesquisador no GEPHIESC - Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação e Instituições Escolares em Santa Catarina.

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Publicado
2017-05-13